Nos 150 anos da publicação do Manual de Photographia

O primeiro livro português dedicado à instrução da fotografia foi publicado há 150 anos atrás. Escrito em 1864 por José António Bentes, o Manual de Photographia destinava-se em primeira instância a servir como referência de estudo aos alunos inscritos na cadeira de Photographia, que o próprio autor passara a dirigir na recém-reformada Escola do Exército1.

Desde então, o nível de know how da fotografia nacional foi evoluindo, a princípio lentamente, com algum atraso relativamente aos grandes centros internacionais, e mais recentemente mantendo-se a par das melhores práticas, beneficiando da revolução de partilha de conhecimento que a world wide web veio protagonizar.

Mas deixando de lado a questão do saber técnico, que pode hoje ser adquirido com facilidade, que outros desenvolvimentos poderíamos ou não reconhecer à prática da fotografia em Portugal, se por um momento pudéssemos deitar um olhar à realidade de há 150 atrás e estabelecê-la como termo de comparação?

Neste artigo, aproveitamos o pretexto da efeméride da publicação do Manual de Photographia para proporcionar esse olhar, ainda que de uma forma breve.

Em 1864, a prática da fotografia contava no nosso país com pouco mais de vinte anos de história, e a criação de uma cadeira dedicada ao seu ensino parecia ser o reconhecimento oficial da grande utilidade que esta atividade poderia representar para o progresso da nação.

Mas a realidade, a julgar pelas palavras do autor do Manual, não era consentânea com essa noção:

A photographia no nosso paiz desamparada, pelos governos julgada esteril, tem-se conservado longe do gráo a que devêra elevar-se; assim apenas tem feito alguns retratos e algumas vistas pelo methodo mais usado.

A França tinha em 1862 vinte officiaes do exercito estudando photographia para serem convenientemente empregados, em quanto que um gabinete, que tivemos no ministerio das obras publicas, ainda antes de completamente montado, e de haverem individuos habilitados, foi fechado por inutil depois de se terem gasto alguns contos de reis2.

Para além da situação caricata do cancelamento do gabinete – para a qual não seria difícil encontrar paralelos atuais -, o panorama descrito continua a ter pontos em comum com o que hoje se verifica na atividade fotográfica nacional.

Mal sabia J. A. Bentes que, ao referir a falta de diversidade temática e originalidade de método que então criticava, a sua observação ainda teria validade um século e meio depois.
Produzem-se atualmente, no nosso país – como no resto do mundo -, quantidades fantásticas de fotografias. Os concursos temáticos abundam; as exposições multiplicam-se. O nível técnico é, frequentemente, muito bom. Mas é, com a mesma frequência, desacompanhado de um pensamento criativo e estruturante que, ao entrar em ação, relegue a técnica para um papel de assistente em deterimento de um de protagonista. Fazem-se muitas fotografias; faz-se pouca fotografia.

E aqui, a falta de uma visão estratégica por parte do poder político para a atividade cultural nacional, tem-se revelado tão culpada como o era no tempo em que foi dado à estampa o Manual de Photographia. O estudo das grandes coleções que se encontram depositadas em arquivos tutelados pelo Estado, essencial para quem pretenda evoluir na prática da fotografia, ficaria muito facilitado se as mesmas fossem acessíveis online. A organização de debates e conferências sobre fotografia seria tão útil para essa mesma evolução como a organização de exposições.

Felizmente, os interessados em fotografia podem hoje emancipar-se de um Estado desinteressado pela cultura, pois os meios essenciais existem. Ainda assim, não seria despropositada a publicação de um novo Manual de Fotografia, preparado com o intuito de responder às lacunas que mais se evidenciam nos dias de hoje.

1. SERÉN, Maria do Carmo – A Fotografia em Portugal, Fubu Editores, s. l., 2009, p. 19
2. Cit in SENA, António – História da Imagem Fotográfica em Portugal – 1839-1997, Porto Editora, Porto, 1998, p. 53


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